Por que o Escopo 3 é o teste de maturidade climática corporativa 

Nos últimos seis anos, tive o privilégio de acompanhar de perto uma das viradas de chave mais importantes do mercado corporativo brasileiro: o amadurecimento da sustentabilidade. Se antes a pauta “meio ambiente” era tratada como um departamento isolado — relacionado a licenças, conformidades jurídicas ou marketing —, hoje ela se sentou à mesa do conselho. 

Esse amadurecimento é nítido. Vemos grandes companhias atrelando metas climáticas diretamente ao bônus de seus executivos, assumindo compromissos públicos com entidades globais e governos desenhando legislações robustas, como o nosso Mercado Regulado de Carbono (SBCE). 

Essa movimentação não acontece por acaso ou por bondade: o planeta começou a cobrar a conta dos desastres climáticos de forma agressiva. De acordo com dados globais do ONU, as catástrofes naturais têm gerado prejuízos econômicos que superam a marca dos US$ 2 trilhões por ano, e no final do dia, quem paga essa conta somos todos nós: pessoas, empresas e governos. 

O grande problema é que, no meio dessa urgência, o mercado pegou a mania de olhar para o micro e esquecer o macro. Preferimos olhar para a árvore isolada em vez de compreender a dinâmica da floresta inteira. Quando um desastre climático interrompe a vida de um funcionário, uma linha de fornecimento ou afeta a infraestrutura dos seus parceiros de negócios, não há apólice de seguro ou multa que mude a realidade. O prejuízo bate à sua porta e ninguém vai pagar a sua conta. 

O ponto cego das grandes corporações   

Para mudar o jeito que produzimos, precisamos parar de olhar apenas para o próprio umbigo. Precisamos olhar de cima. E para entender o todo, precisamos de uma única coisa: dados

É aqui que o calcanhar de Aquiles das metas de descarbonização aparece. Para entender o tamanho do desafio, precisamos separar as emissões em três escopos, segundo as diretrizes globais do GHG Protocol e da norma ISO 14064-1

  • Escopo 1 (Diretas): É aquilo que a empresa emite na sua operação direta (como o combustível da frota própria ou as caldeiras da fábrica). 
  • Escopo 2 (Indiretas por Energia): É o consumo de energia elétrica adquirida para rodar o negócio. 
  • Escopo 3 (Toda a Cadeia de Valor): São as emissões indiretas que acontecem fora dos muros da empresa, englobando desde a extração da matéria-prima pelos fornecedores até a logística terceirizada, viagens de negócios e o descarte final do produto. 

A grande questão é que, segundo dados consolidados pelo Trends Show Companies Are Ready for Scope 3 Reporting , as emissões de Escopo 3 representam de 70% a 80% de toda a pegada climática de uma grande empresa. Em alguns setores industriais, elas chegam a ser até 20 vezes maiores do que os Escopos 1 e 2 somados. 

Agora faça as contas: como uma grande corporação pode anunciar uma meta séria de Net Zero se ela toma decisões baseadas apenas em “estimativas setoriais genéricas” para cobrir 80% do seu impacto real? 

Viver de estimativas é o equivalente a gerenciar o fluxo de caixa de uma empresa usando previsão de vendas. O mundo ideal exige dados primários — informações reais, coletadas na raiz de cada elo da cadeia de valor, para que as decisões gerem resultados verdadeiros na sociedade e no meio ambiente. 

Mapear o Escopo 3 é um desafio de rastreabilidade monumental. Ele exige entender a materialidade das emissões em dezenas de categorias diferentes. No início do processo, usar médias de mercado para entender o que é mais urgente é aceitável. Mas no momento em que identificamos os pontos críticos, o investidor, o regulador e o cliente exigem dados assertivos, reais e auditáveis. 

É por isso que o inventário de emissões é tão importante. Esses padrões trazem a segurança metodológica e a padronização que o mercado financeiro precisa para confiar no seu negócio. E se a sua grande empresa já segue esse padrão, por que não trazer a sua cadeia de valor para a mesma sintonia? 

A resposta para essa pergunta costuma ser o bolso. Exigir que pequenas e médias empresas contratem consultorias tradicionais e caras para fazer inventários complexos aumenta o custo operacional na ponta, reduz a competitividade dos produtos e faz todo mundo perder mercado. 

A tecnologia como ponte para a descarbonização real  

Foi exatamente para resolver essa questão que na Mercado Net Zero, nós desenvolvemos a plataforma Pegada

A lógica é simples: o parceiro de negócios de médio ou pequeno porte pode não ter um departamento de sustentabilidade estruturado, mas ele tem as notas fiscais, as contas de luz e as planilhas de Excel, os dados operacionais. A nossa plataforma utiliza leitura inteligente de documentos e automações para transformar essa rotina em um inventário de alta integridade técnica. 

Para deixar o processo ainda mais fluido, criamos o Netinho, nossa inteligência artificial treinada no GHG Protocol que atua como um consultor exclusivo e disponível 24/7 para tirar dúvidas técnicas instantaneamente. Nós reduzimos o custo de “hora-homem” das consultorias e entregamos uma ferramenta intuitiva, baseada em tecnologia e escuta ativa. 

O nosso objetivo é claro: democratizar o inventário de carbono para que as grandes, médias, pequenas empresas e até microempreendedores possam comprovar suas emissões sem travar suas operações ou aumentarem seus custos. Afinal, a gente só combate as mudanças climáticas quando a solução é financeiramente viável e tecnologicamente escalável. 

Vamos sentar à mesa e conversar sobre o Escopo 3 da sua cadeia de valor hoje?

Giuliano Capeletti

Fundador e CEO da Mercado Net Zero.

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