A decisão está tomada: o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) encerrará formalmente suas operações até o final de 2026. Além do marco regulatório, há um movimento financeiro claro, com a transferência de cerca de US$ 26,8 milhões para o novo mecanismo do Artigo 6.4 do Acordo de Paris.
É o fim de um capítulo, mas precisamos reconhecer seu valor: o MDL foi a base de tudo. Ele pavimentou o mercado voluntário e nos ensinou a criar metodologias para medir o que antes era invisível. Sem ele, não teríamos a estrutura de mercado que temos hoje.
No entanto, o mercado evoluiu e a régua subiu.
O que me preocupa — e indigna — é ver empresas no mercado ofertando projetos de MDL que já estão extintos ou inativos desde 2022 como se fossem a solução definitiva para o Net Zero. Muitos desses projetos não possuem mais monitoramento ativo ou já deveriam ter migrado para novos padrões. Comercializar esses ativos antigos sem transparência é expor o cliente a um risco desnecessário.
Na Mercado Net Zero (MNZ), levamos a Due Diligence ao extremo. Não ofertamos o que não passa pelo nosso crivo de segurança e atualidade. Apoiamos a jornada de descarbonização com projetos que existem, performam e auditamos hoje, não com o que sobrou no estoque do passado.
Outro ponto que exige clareza técnica: Crédito de Carbono x Plantio de Árvores.
Existe uma confusão comum que precisamos desfazer: plantar árvores é uma ação nobre – eu mesmo faço isso na minha casa, cuido do que germina na compostagem, ajudo o ecossistema local – mas não é, automaticamente, um crédito de carbono.
Um projeto de crédito (seja ARR ou REDD+) segue metodologias internacionais rigorosas.
Ele exige monitoramento auditável de sequestro de CO2.
Ele protege a biodiversidade e o bioma, garantindo que não haja introdução de espécies exóticas nocivas que competem com a flora nativa.
Ele garante a permanência da floresta em pé.
Dizer que “plantei x árvores” sem metodologia por trás é uma ação positiva, mas não gera a segurança técnica necessária para uma compensação corporativa.
Sustentabilidade: Direito ou Obrigação?
Vivemos um momento onde muitos querem “vender” a sustentabilidade como um diferencial de marketing, quando, na verdade, ela já se tornou uma premissa básica de operação. O Brasil possui um dos agronegócios mais eficientes do mundo, apoiado por ciência e legislação robusta. Mas precisamos lembrar que manter a floresta em pé e o ecossistema equilibrado não é apenas para “vender crédito”. É para garantir que a chuva continue caindo na época certa, que a estiagem não destrua a safra e que tenhamos qualidade de vida.
Ser sustentável é uma obrigação para continuarmos produzindo. O crédito de carbono é uma ferramenta financeira séria para viabilizar essa conservação, não um atalho para quem quer parecer verde sem entender a complexidade do tema.
O mercado amadureceu. A sua estratégia de carbono acompanhou essa evolução?
Giuliano Capeletti
Fundador e CEO da Mercado Net Zero.

